."Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe".Oscar Wilde .
Terça-feira, 23 de Outubro de 2007
Em redor de Mertola ...

Em redor de Mértola, o Alentejo faz-se de pastagens verdejantes pintalgadas por margaridas e aldeias remotas, onde a tradição, por um fio, teima em ser o que sempre foi. Uma das regiões mais belas do país, a visitar enquanto é tempo …

Cada vez menos habitado e mais tranquilo, o Baixo Alentejo oferece a quem vem das grandes cidades paisagens terrivelmente belas e remotas, onde só o silêncio parece ter ganho lugar. Algumas povoações – poucas – sobrevivem da pastorícia e da vontade dos residentes em preservar um modo de vida em desuso.

Mas, quilómetros e quilómetros de campos ondulantes abandonados às florzinhas primaveris são o rosto da evidente desertificação da região.
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Mértola, vila encravada entre as serras, o Guadiana e a ribeira de Oeiras são, neste contexto, um pequeno oásis de prosperidade – miragem de vida no coração de um Portugal quase desaparecido, em claro contraste com os campos e aldeias em redor.

Dia 1 | 92 km

Mértola á S. Miguel do Pinheiro á Pulo do Lobo á Mina de São Domingos
Mértola, vila-museu sobranceira ao Guadiana, é o nosso ponto de partida. Com as suas ruas engalanadas de laranjeiras e casinhas rasteiras caiadas, com vista para o rio, esconde na pacatez do quotidiano um passado grandioso. Mencionada por geógrafos da Antiguidade, foi palco de transacções entre fenícios e cartagineses. Após a invasão romana, tornou-se uma das quatro municipia da Lusitânia, mas acolheu, ainda, os suevos e os visigodos.

Um dos maiores marcos da sua História foi, no entanto, a invasão árabe, em 712 – que lhe garantiu o estatuto de importante centro de escoamento de cereais e minerais no Mediterrâneo –, de que guarda, ainda, vestígios incontornáveis (em memória desses tempos é realizado de dois em dois anos o Festival Islâmico, estando o próximo previsto para Maio de próximo).

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Entre os lugares mais aprazíveis de Mértola conta-se o castelo, monumento nacional, construído sobre estruturas árabes, após a reconquista cristã em 1238. Mesmo ao lado, desenrolam-se escavações arqueológicas reveladoras da ocupação romana e árabe da cidadela.

Um pouco mais abaixo fica a invulgar – dada a sua estrutura quase quadrangular – Igreja Matriz, de origens mouras. Refeita na segunda metade do século XII, conserva da sua estrutura inicial o mirhab (altar árabe voltado a nascente) e as portas com arcos em ferradura.
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Tranquila, mas cheia de vida, esta vila é cada vez menos um lugar abandonado, habitado por reformados. Esta contradição perante as tendências da desertificação actual é reflexo do esforço da Câmara Municipal e do arqueólogo Cláudio Torres, que, nos anos setenta do século XX, não só deram início à primeira escavação contínua da arqueologia portuguesa, como recuperaram muitas das tradições da região, assim como o seu património histórico edificado. Desde aí que não faltam atracções – museus, centros de artesanato, restaurantes – para entreter tanto os velhos como os novos residentes e um número crescente de viajantes.

Continuando a descer, em direcção às muralhas, passa-se por um pitoresco atelier de joalharia contemporânea de inspiração muçulmana, lugar de compras seguras, mas aberto a horas incertas. Mais à frente encontram-se o Núcleo de Arte Islâmica, onde estão expostas peças de osso e metal, objectos de adorno e utensílios domésticos encontrados na região, e o Núcleo de Arte Sacra, com imagens e alfaias litúrgicas recolhidas pelo concelho (todos este núcleos museológicos e ainda a Basílica paleocristã e a Casa Romana podem ser visitados com um bilhete único, no valor de €5).
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Para concluir o passeio passe pelo Centro de Tecelagem, onde quatro artesãs fiam lã e tecem meias, panos e belíssimas mantas, de acordo com a tradição herdada dos árabes (provavelmente as únicas no concelho a fazê-lo). A maioria das peças em exposição encontra-se à venda, por isso aproveite...

Calcorreado o burgo, partimos rumo às serranias, mais precisamente à povoação de S. Miguel do Pinheiro, para conhecer o processo de moagem da farinha. As visitas ao moinho de vento recuperado e integrado no Circuito do Pão devem ser marcadas com antecedência com a Junta de Freguesia.
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Toma-se, então, a estrada que vai para Almodôvar, ao longo da qual apenas nos cruzámos com um pastor e dois automóveis tresmalhados.

Os montes agrícolas estão agora abandonados e, não fosse a beleza dos prados em vestes primaveris, experimentaríamos uma estranha sensação de desolação.

Voltando à esquerda para Alcaria Longa, seguimos as indicações e eis-nos na aldeia, onde, a julgar pelos moinhos em ruínas, um dia já se fez muito pão – delicioso como só no Alentejo. Por isso mesmo, e após conhecer os mistérios que levam o grão de trigo a transformar-se em pó, sugerimos que procure Manuela Bonito, uma jovem que optou por ficar na sua aldeia de origem, e que todas as sextas e domingos retira do seu forno a lenha o pão e as “costas” (doce tradicional de massa lêveda) mais cobiçados das redondezas.  001hexqr
Com o lanche no porta-bagagens, prossiga para o Pulo do Lobo, regressando a Mértola, pelo mesmo caminho. Tome a estrada que vai para Beja e volte para Corte Gafo de Cima (também pode comprar aqui, ao sábado, pão caseiro na casa de D. Climena), em direcção à Amendoeira, onde termina a estrada de alcatrão. O percurso a partir deste lugar é feito por um caminho de terra batida, rodeado por pastos e olivais, ao longo de 10 quilómetros. Avança-se a passo de caracol e a expectativa face ao local que – segundo se conta – os lobos e contrabandistas utilizavam para, de um só salto, atravessar as margens do Guadiana não pára de aumentar.

É o marulhar vibrante das águas, relaxante e assustador, que mais impressiona à medida que nos aproximamos do rio. Obrigado a passar por um estreito de três metros de largura, devido a um estrangulamento geológico natural, o Guadiana salta apressado sobre uma cascata com 15 metros de altura, para formar uma lagoa natural mais à frente. O terreno, rochoso e acidentado, oferece duas plataformas artificiais, eleitas como um pouso seguro para assistir à fúria das águas. E assim ficamos até que o fresco da noite nos faça recolher à Estalagem de São Domingos.
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Dia 2 | 51 km

Minas de São Domingos á Pomarão á Alcoutim
O dia amanhece em São Domingos sereno e soalheiro, como se quer em pleno Baixo Alentejo. No Verão, a praia fluvial – classificada pela DECO como uma das melhores do país – até pode atrair centenas de veraneantes, mas, até Junho, só as cigarras se fazem ouvir. Deixamos, relutantes, a piscina, a biblioteca centenária e o salão de jogos da Estalagem de São Domingos, onde pernoitámos, para partir à descoberta da aldeia vizinha e da mina que lhe deu razão de ser, há cerca de dois séculos, entretanto desactivada (1862-1967).
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A povoação é composta por uma igreja e algumas fileiras de casas caiadas pequeninas. Um court de ténis, um jardim e um coreto testemunham a presença dos britânicos, incapazes de abdicar do seu estilo de vida, mesmo neste fim de mundo.
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A mina, cerca de um quilómetro à frente, por seu lado, evoca uma paisagem lunar de fazer inveja a qualquer cenário de Spielberg ou George Lucas. O esqueleto da que foi um dia uma das mais importantes explorações de minério da Península Ibérica está agora abandonado à curiosidade de um ou outro viajante solitário e às cegonhas. Sinistro e enigmático, este lugar é também fascinante por guardar em silêncio as histórias, muitas vezes dramáticas, dos milhares de homens que arrancavam à serra toneladas de minério, escoado através do Guadiana.

Testemunhos dessa mesma época podem ser observados cerca de 18 quilómetros a sul, no Pomarão, onde chegavam os vagões carregados de pirite, vindos de São Domingos, para serem descarregados em grandes navios.
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A povoação, pouco mais que uma rua, é o primeiro vestígio desse tempo. O segundo consiste nos restos dos carris que atravessavam a montanha num desafio, então único no Velho Continente. Actualmente, o Pomarão mantém-se vivo por ser o último ponto navegável do Guadiana, servindo de porto para alguns iates e pequenos cruzeiros. Todos os meses de Março é também cenário do Festival do Peixe – um verdadeiro festim para os apreciadores das caldeiradas de peixe do rio, de que a lampreia é rainha.
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A partir daqui seguimos o Guadiana, rumo a Sul, retomando a N122, para, em cerca de trinta minutos, alcançarmos a vila algarvia de Alcoutim. Conquistada aos muçulmanos em 1240, dois anos após Mértola, a povoação, com as suas ruazinhas estreitas e casario caiado pontilhado por vasos floridos, tem no castelo quatrocentista a sua principal atracção. Classificado como Imóvel de Interesse Público, o edifício recentemente restaurado acolhe uma loja de artesanato e o Núcleo Museológico de Arqueologia, além de proporcionar uma vista soberba sobre a localidade espanhola de San Lucar e o rio.
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De resto, é de assinalar o interesse arquitectónico das suas várias igrejas, algumas das quais elevadas sobre antigas mesquitas. A de Nossa Senhora da Conceição merece visita atenta, pois guarda o Núcleo Museológico de Arte Sacra, enquanto a Igreja Matriz, quase junto ao rio, é um dos melhores exemplares do Primeiro Renascimento no Algarve.
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O que não deverá perder, de forma alguma, é o cair do dia à beira-rio, enquanto petisca numa das muitas esplanadas ribeirinhas, ou, então, uma pequena viagem até à outra margem, numa das embarcações que cruzam diariamente o Guadiana.

Itinerário.

Dia 1 | 92 km

Mértola á S. Miguel do Pinheiro á Pulo do Lobo á Minas de São Domingos
À saída de Mértola, tome a N267 por 22 km. Volte à esquerda na indicação de Alcaria Longa e, cerca de 1 km à frente, encontrará S. Miguel do Pinheiro.
De volta a Mértola, faça o mesmo percurso. Aí chegado, siga em direcção a Beja pela N122 e volte à direita na indicação de Corte Gafo de Cima, rumo à Amendoeira.
A partir daí siga as placas indicativas do Pulo do Lobo (o acesso pode também ser feito pela estrada de Serpa, mas desse lado terá de deixar o carro bastante longe da margem).
Regresse a Mértola. Tome a estrada de Serpa, a N265, e siga sempre em frente. Cerca de 18 km mais à frente encontra a aldeia de S. Domingos. Para chegar à Mina tem de voltar
à direita na rua principal. Os vestígios da exploração de pirite ficam cerca de um quilómetro à direita.


Dia 2 | 51 km
Minas de São Domingos á Pomarão á Alcoutim

Tome novamente a N265 por cerca de 6 km, e volte à esquerda na EM514. Siga sempre em frente. Passados 12 km chegará ao Pomarão.
Para Alcoutim, siga em direcção a Mesquita pela EM514. Cerca de 2,5 km após ter passado por esta povoação, volte à esquerda para apanhar a N122. Após ter passado por Santa Marta, volte na quarta saída à esquerda em direcção a Alcoutim, que dista cerca de 5 km.

 
 

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Terça-feira, 2 de Outubro de 2007
Alqueva " O Grande La...

... haverá na Europa algum espelho de água artificial maior do que o Alqueva? Não há, e também não deverão existir muito...

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publicado por AntonioCasteleiro às 00:01
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Este blog é um espaço de análise e opinião. Da minha análise sobre factos e coisas do dia a dia, e da opinião que à cerca delas vou construindo. Sobre o que escrevo, muitos dos que me lerem Estarão de acordo e muitos outros discordarão. Não há mal nenhum nisso. Assim uns e outros saibam Respeitar uma opinião contraria.Antonio Casteleiro

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- Esta irmandade tem um código de honra silencioso, quase secreto, que nunca precisou ser escrito, mas quem faz parte dela já nasce sabendo. Este código reza não deixar um irmão na estrada, não conhece o valor do dinheiro e ensina que todo motociclista merece respeito independente da marca ou cilindradada de sua mota. -

( antonio casteleiro )

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